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arquivo da categoria: [livros]

depois

a morte pegou-lhe ao colo, passou as mãos esqueléticas pela sua pelagem, devagarinho, e pôs-se a cantar como alguém lhe cantara quando ele era pequenino:

dorme, dorme, meu gatinho,
um soninho descansado.
está na hora de dormires
e de ficares sossegado.

o gato fechou os olhos e nunca mais acordou.

um gato tem 7 vidas
luísa ducla soares

endless crucifixion

agamenon-marat crucified in their baths
hollywood playbod crucified in his
swimming pool
proust crucified on his memory
the gambler crucified on probability
rimbaud crucified in his leg
the alchemist cricified on his crucible
james dean crucified on his car
icarus crucified on the sun
marilyn monroe crucified on her image
che guevara crucified on the revolution
the saigon buddhists crucified on a
gasoline tank
al capone crucified on his income tax
artaud crucified on the well of his mind
heloise and abelard crucified on each other
dylan thomas crucified in new york
empedocles crucified on a volcano
plato crucified on an idea
lorca crucified in a bullet
mayakosky crucified on everyday life
marxism crucified by stalin
a tree crucified by its branches
jesus crucified by the church
gerard de nerval crucified on a rope
hypatia crucified on her intellect
peregrinos crucified on his funeral pyre
socrates crucified on example
satan crucified on his pride
love crucified by impotence
weakness crucified by fear
man crucified by himself
madame de recamier crucified on her couch
de sade crucified on his imagination
niettshe crucified on his genius
kierkeggard crucified on his god
kafka crucified on suspicion
nobody crucified on nothing
jacques vache crucified on his idea of man
jacques rigau crucified on his tie
hemingway crucified on his idea of man
g.m.crucified on a image from his past
hitler crucified on ice
spartacus crucified on slavery
mind crucified on a machine
a monkey crucified wuthin man
sex crucified by desire
space crucified by time
einstein crucified relativity
saint just crucified on no freedom for the
enemies of freedom
robespierre crucified on the absolute
oscar wilde crucified on sex
new your crucified on the subway
london crucified by boredom
paris crucified by intelligence
athens crucified on nothingness
rome crucified by the past
moscow crucified by vladivostock
turkey crucified by guilt
heroism crucified opportunity
glory crucified by ridicule
descartes crucified by reason
raymond lully crucified on superstition
queerdom crucified in a latrine
utopia crucified on something
life crucified by meaning
impulse crucified by society
melody crucified sentiment
ugliness crucified by beauty
today crucified by tomorrow
now crucified by what comes next
moonlight crucified by the sanity
poetry crucified by me.

nanos valaoritis

[..]

o banco de antero sempre foi, para mim, um lugar de culto, que quase oração.
aprendi-o, com o meu pai, numa manhã de doze anos.
a gente ia a aproximar-se, quando ele pegou na minha mão e foi dizendo, baixinho, o soneto ‘na mão de deus’.
hoje, ainda o oiço, hoje, quando ali me sento, os seus dedos continuam a tomar conta dos meus.

em ano que já cá não está, ia eu a rasgar a miserável tristeza que, há muito, sitia o campo de são francisco, quando deparei com um casal em frente do banco de antero.
ela vinha de máquina fotográfica ao peito e ele, num rodopio imbecil, sentou-se, abriu os braços, e disse em alta voz:
– “tira-me uma fotografia! foi aqui que o gajo se suicidou!”

quando a máquina fotográfica disparou, todas as pombas, feridas de vergonha, levantaram voo…

pág.15, 30 crónicas II
emanuel jorge botelho

portas do mar

que vos pode dizer um homem
acabado? cheguei à cidade
e apenas percebi as ondas,
a geografia vagamente familiar das ruas,
a estranheza limpa dos rostos.

por aqui, vive-se ou morre-se
de passado; tem-se da esperança
uma ideia anteriana, mas menos exigente.

um cheiro a sal e basalto entranha-se devagar nas veias.
sabemos que vai ficar, mas não sabemos como.
enquanto até as nuvens parecem sorrir
e tingem de ‘cinza roxa’ as calçadas e os dias.

página 7, portas do mar
manuel de freitas

Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar. Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

a mulher de porto pim
antónio tabucchi

a mulher de porto pim

Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.

a mulher de porto pim
antónio tabucchi

sobre a vida

espeta-te com o garfo.
corta-te com a faca.
deita-te no prato.
espera.

alexandre o’neil
a capital, junho 1975

introdução ao tempo

porque ficou oceânico
o escasso momento de nós?

escorríamos pelas mãos
insatisfeitas e límpidas
nascentes
no ar um tempo frustre
a sequência dos sons
perdidos nos degraus

simples é a dor
e nós, nascidos

poesia, pág. 28
luiza neto jorge

o que somos?

porquanto o horizonte é uma centopeia grande, o mar é uma centopeia grande. nós uma centopeia emborcada, a arranhar o ar.

poesia, pág. 30
luiza neto jorge

fragmento 2

uma sombra enconstava a pata
ao vidro da janela
assim protegidos adormecíamos

poesia, pág. 280
luiza neto jorge

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