o amor é uma noite a que se chega só.
josé tolentino de mendonça, a noite abre meus olhos
para ti,sempre
o amor é uma noite a que se chega só.
josé tolentino de mendonça, a noite abre meus olhos
para ti,sempre
atrás de ti o caminho luminoso
como se o abismo tivesse uma cabeleira branca.
josé tolentino de mendonça
certas manhãs chegava
esmagado pela luz
longo, frívolo, ofensivo
qualquer gesto aludia
a uma espécie de temor
a tristeza daqueles que pertencem
a lugar nenhum
vivia tudo num instante
a solidão, os rancores
as alegrias dos outros
o silêncio do outono
nunca o amor tocara o seu corpo
com a intensidade do medo
tornou-se parte de um rio
nem perto, nem longe
da palavra justa
ele só pedia
“não me digam nada”.
josé tolentino de mendonça
a casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
durmo no mar, durmo ao lado do meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração.
josé tolentino de mendonça
we need much bigger pockets, i thought as i lay in bed, counting off the seven minutes that it takes a normal person to fall asleep. we need enormous pockets, pockets big enough for our families, and our friends, and even the people who aren’t on our lists, people we’ve never met but sill want to protect. we need pockets for boroughs and for cities, a pocket that could hold the universe.
[...]
but i knew that there couldn’t be pockets that enormous. in the end, everyone loses everyone. there was no invention to get around that, an so i felt, like the turtle that everything else in the universe was on top of.
pag.74, extremely loud & incredible close
jonatham safran foer
cruzámos nossos olhos em alguma esquina
demos civicamente os bons dias:
chamar-nos-ão vais ver contemporâneos
ruy belo, epígrafe para a nossa solidão
tu és o nó de sangue que me sufoca. dormes na minha insónia como o aroma entre os tendões da madeira fria. és uma faca cravada na minha vida secreta. e como estrelas duplas consanguíneas, luzimos de um para o outro nas trevas.
photomaton & vox, herberto helder
tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore. aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a medida exacta do meu desejo.
pág. 59 – a prisão e a paixão de egon schiele, vasco gato
o mar entre nós é uma ficção de escamas,
um lindíssimo susto portuário.
pág. 44 – a prisão e a paixão de egon schiele, vasco gato
desde que nos deixaste o tempo nunca mais se transformou
não rodou mais para a festa não irrompeu
em labareda ou nuvem no coração de ninguém.
a mudança fez-se vazio repetido
e o a vir a mesma afirmação da falta.
depois o tempo nunca mais se abeirou da promessa
nem se cumpriu
e a espera é não acontecer — fosse abertura —
e a saudade é tudo ser igual.
- daniel faria,”explicação das árvores e de outros animais”