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arquivo da categoria: [livros]

José Ser Amargo

não gosto de obituários, especialmente daqueles que se referem a mortes de doença prolongada. os portugueses que nunca o entenderam, que agora o façam e, claro, o elogiem. fico-me pelo graffitado em alguns ruas do porto – josé ser amargo.

o desconforto

há somente searas sobre a terra;
a espera insuportável e o silêncio inexprimível.

p.74, ontem ~ agota kristof

o tempo

o tempo despedaça-se. onde reencontrar os terrenos vagos da infância? os sóis eliptícos imobilizados no espaço negro? onde reencontrar o caminho que oscilou para o vazio? as estações perderam todo o seu significado. amanhã, ontem, que querem dizer estas palavras? só existe o presente. uma vez, neva. outra, chove. depois faz sol, faz vento. tudo isso é agora. isso não foi, não será. isso é. sempre. ao mesmo tempo. porque as coisas vivem em mim e não no tempo. porque as coisas vivem em mim e não no tempo. e, em mim, tudo é presente.

p.74, ontem ~ agota kristof

o sonho

ontem dormi até muito tarde. sonhei que estava morto. via a minha campa. estava abandonada, coberta de ervas daninhas.

uma velha passeava-se pelas campas. perguntei-lhe porque é que não tratavam da minha.

- é uma campa muito antiga – disse-me ela. – observe a data. não há ninguém que possa ainda conhecer aquele que aqui está sepultado.

eu olhei. era o ano em curso. não soube o que responder.

quando acordei era já noite. da minha cama via o céu e as estrelas. o ar estava transparente e doce.

p.73, ontem ~ agota kristof

eu espero

actualmente, não resta muita esperança. dantes, procurava, mexia-me a todo o instante. esperava alguma coisa. o quê? não sabia. mas pensava que a vida não podia ser o que era, ou seja, o mesmo que nada. a vida devia ser alguma coisa e eu esperva que essa coisa chegasse, procurava-a.

agora penso que não há nada por que esperar, então, fico no meu quarto, sentado numa cadeira, não faço nada.

penso que existe uma vida lá fora, mas nessa vida nada se passa. pelo menos para mim.

quanto aos outros, talvez se passe alguma coisa, é possível, isso já não e interessa mais.

p.29, ontem ~agota kristof

entre ti e mim uma ilha

percorro em ti o que de ti sei
agora vão pássaro em voo
espelho de escuras sombras e lago
idêntico à ovelha que roda
no círculo que a fecha em si

entre ti e mim despenhados das águas
que dos montes aos montes tornam
entre ti e mim uma ilha
………………………………

p.93, a cal dos muros ~ antonio dacosta

Feira do Livro do Porto, 3

a cal dos muros ~ antónio dacosta, assírio & alvim [4€]
ontem ~ agota kristof, cavalo de ferro [4.8€]

Feira do livro do porto,2

e o pavilhão dos açores que andou por lisboa?

Feira do livro do porto

andam todos mais entusiasmados com a ginginhacupcakes do que com os livros.

do inconveniente de ter nascido

Não me perdoo o ter nascido.
É como se, ao insinuar neste mundo, tivesse profanado um mistério, cometido uma falta de gravidade sem nome.

do incoveniente de ter nascido, e.m. cioran
[na montra da livraria utopia, junto à praça da republica]

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