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arquivo da categoria: [livros]

mesmo que faça frio
não aproximes do fogo
um coração de neve

a papoila e o monge
josé tolentino de mendonça

o tempo tem passado

sinto-me metade de um homem – disse gould. – deus roubo-me as unhas e é como se não tivesse alguns órgãos e alguns pensamentos e alguns sonhos. sinto-me um pianista que só toca com uma mão, percebes? há metades que funcionam, como, por exemplo, as meias doses dos restaurantes. mas há outras metades que são o maior desastre, como um cirurgião que interrompe a operação a meio.

– não fazes ideia de onde é que ela possa estar?

– não sei de nada desse que voltou para a união soviética. quando penso nisso  percebo que a conhecia muito mal. não sei quem era. talvez seja por isso que as pessoas precisam de deus: precisam de algo impossível de definir.

– o tempo fará com que a esqueças.

– gostava da maneira como ela me olhava, sentia uma borboleta a pousar-me nos olhos. às vezes até tinha vómitos. era muito bom.

– o tempo fará com que…

– o tempo tem passado, isaac, tem passado. e eu continuo a ser metade de mim mesmo.

[…]

jazz, rosas e rosmaninhos ~ afonso cruz
p. 143, granta portugal vol1

vistos de perto

tu corres a meu lado
na direcção contrária.
qual de nós irá chegar
primeiro à solidão.

– josé miguel silva (1999)

auto-retrato

apenas um homem
com febre de versos:
minha sã imagem
nua até aos ossos.

antónio barahona, as grandes ondas

PAUSA*

sentado, bebo sozinho,
indiferente ao crepúsculo.
as flores caídas
acumulam-se nas dobras
de minha túnica.
bêbado me levanto
e procuro a lua nas águas.
os pássaros já se foram todos.
são raros os passantes.

li bai
in poemas clássicos chineses, L & PM

 

[*voltarei daqui a uns meses]

fim de mais um tempo

à noite, todos os poemas são pardos.
manuel antónio pina

ainda puro

diz-me que há ainda versos por escrever,
que sobra no mundo um dizer ainda puro.

vasco gato
um mover de mão, 2000

vou-me embora, disseste,
sem mentir à face,
sem pousar os olhos nos espelhos da casa.

ontem, deixei incenso
dentro da tua sombra.
estavas deitado dentro da tua morte,
como um santo.

emanuel jorge botelho
antero de quental, a vida e uma manhã

outro eu

aquela zona era, assim, um micro-espaço dentro de um micro-espaço, […] uma ilha dentro de uma ilha.
fez-se luz, catarina branco

baixo-relevo

dentro de um secular sossego
nós somos
a escultura de amanhã

poesia
luíza neto jorge

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