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arquivo da categoria: [livros]

a quinta dos animais

doze vozes gritavam, furiosas, e todas se assemelhavam. era agora evidente o que sucedera aos rostos dos porcos. os animais diante da janela olhavam dos porcos para os homens, dos homens para os porcos, e novamente dos porcos para os homens: mas já era impossível distingui-los uns dos outros.

[ultimo paragrafo, p. 132 ~ a quinta dos animais, george orwell]

linha do horizonte

em dias de ilha à vista, contraio uma ponta de inquietação. não me apetece dar existência ao que tenho entre mãos. na ilha sempre fui padecente cronico de doença tão doce. se na minha viagem diária de camionete para a cidade avistava o pico arroxeado da ilha de santa maria, nem punha os pés no liceu. à conta da gazeta repetida, fiquei muitas vezes tapado por faltas. achas que poderia haver aço e paciência para sofrer a chateza das aulas, quando, logo de manhã, e autorizando-se o tempo, se assistia ao parto de uma ilha irrompendo da linha complacente do horizonte, num prenúncio de que havia mais mundo para desbravar?

[marilha, p.192 ~ cristovão de aguiar]

paralelos

e porventura hoje estamos a aproximarmo-nos de um limiar homólogo - uma nova ‘experiência de vida’ paira no ar, uma percepção da vida que destrói a forma narrativa centrada e linear e transmite a vida como um fluxo multiforme, inclusivamente no domínio das ciências duras; parece que estamos obcecados pela aleatoriedade da vida e as versões alternativas da realidade. ou sentimos a vida como uma série de múltiplos destinos paralelos que interagem e são afectados de um modo crucial por encontros contigentes sem significado, pontos de intersecção nos quais uma série flui noutra (ver short cuts de Altman), ou como uma repetição continua de diferentes versões/desfechos do mesmo argumento (os ‘universos paralelos’ ou ‘mundos alternativos possiveis’ - vejam-se os filmes de kiéslowski, blind chance, a dupla vida de verónique, e vermelho…). esta percepção da nossa realidade como um dos desfechos possíveis - muitas vezes nem sequer provaveis - de uma situação ‘aberta’, esta ideia de que outros desenvolvimentos possíveis não são eliminados, continuando a assombrar a nossa realidade ‘verdadeira’ como um espectro do que podia ter acontecido e conferindo-lhe um estatuto de fragilidade e contingências extremas, colide implicitamente com as formas narrativas predominantemente ‘lineares’ da nossa literatura e do nosso cinema …

[páginas 173-4, slavoj žižek ~ lacrimae rerum]

analogias

já deitado e remoer o fim de klaus klump, lembrei-me quem gonçalo m. tavares me faz lembrar: a húngara agota kristof.

exercícios

há exercícios para treinar a verdade como, por exemplo, ter medo.  ou então ter fome. depois restam exercicios para treinar a mentira: todos os grupos são isto, e todos os negócios. estar apaixonado é a outra forma de exercitar a verdade.

[página 132, um homem: klaus klump ~ gonçalo m. tavares]

sobreviver

o dia é dividido em vários momentos, como numa folha um quadrado desenhado a lápis que se vai cortando em quadrados cada vez mais pequenos. e em cada quadrado o mesmo objectivo. e isso significa apenas que não foi feita nenhuma separação: enquanto estamos vivos o dia é igual. é isto. sobreviver. continuar a querer estar vivo.

[página 96 ~ um homem: klaus klump, gonçalo m. tavares]

túnel

o destino tem uma lógica própria. são necessários cálculos complexos para perceber o que poderia ter acontecido em vez do que realmente aconteceu. há demasiadas possibilidades para que aconteça sempre o mesmo. o mundo tem uma varieadade e é longo. o mundo deveria ser um túnel, onde entravas de manhã e saías à noite. sem ramificações. uma canalização orientada, como existe nas casas. abres a torneira e sabes que sai água. ou então não sai água. só existem duas possibilidades.

[página 18 ~ um homem: klaus klump, gonçalo m. tavares]

rayuella

mas quem, senão os muito jovens (e os profissionais do sector), se ocupa ainda da metafísica? talvez seja isto, que vem em “rayuella”: ‘ao sonhar, podemos testar a nossa aptidão para a loucura de forma gratuita’.

[sobre julio cortázar ~  ípsilon, sexta-feira 23 maio 2008]

desapareci

não sei exactamente quanto tempo transcorreu desde que desembarquei na ilha. muito foi, isso posso calcular. mas o tempo modifica-se quando se vive debaixo de um cobertor esburacado, quando aqui se come e aqui se dorme. o tempo não tem importância - passa e é tudo. mas sei perfeitamente porque vim e o que faço aqui, porque ergui em meu redor esta fortaleza que me separa do mundo e do tempo: desapareci; quero estar só. e para tanto o cobertor me basta.

[zero à esquerda ~ manuel jorge marmelo - p.129 o prazer da escrita, fnac para o dia mundial do livro / teorema]

o homem sem qualidades

a atitude do protagonista é a de um grande céptico. não é o negativismo ou puro niilismo. é a crença naquilo a que ele chama “o sentido das possibilidades das coisas”.

[joão barrento sobre ‘o homem sem qualidades’ de musil ~ pág. 14 ípsilon, sexta feira 18 abril 2008]

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