e porventura hoje estamos a aproximarmo-nos de um limiar homólogo - uma nova ‘experiência de vida’ paira no ar, uma percepção da vida que destrói a forma narrativa centrada e linear e transmite a vida como um fluxo multiforme, inclusivamente no domínio das ciências duras; parece que estamos obcecados pela aleatoriedade da vida e as versões alternativas da realidade. ou sentimos a vida como uma série de múltiplos destinos paralelos que interagem e são afectados de um modo crucial por encontros contigentes sem significado, pontos de intersecção nos quais uma série flui noutra (ver short cuts de Altman), ou como uma repetição continua de diferentes versões/desfechos do mesmo argumento (os ‘universos paralelos’ ou ‘mundos alternativos possiveis’ - vejam-se os filmes de kiéslowski, blind chance, a dupla vida de verónique, e vermelho…). esta percepção da nossa realidade como um dos desfechos possíveis - muitas vezes nem sequer provaveis - de uma situação ‘aberta’, esta ideia de que outros desenvolvimentos possíveis não são eliminados, continuando a assombrar a nossa realidade ‘verdadeira’ como um espectro do que podia ter acontecido e conferindo-lhe um estatuto de fragilidade e contingências extremas, colide implicitamente com as formas narrativas predominantemente ‘lineares’ da nossa literatura e do nosso cinema …
[páginas 173-4, slavoj žižek ~ lacrimae rerum]