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arquivo da categoria: [ilha]

A bruma engana

É mulher de muita manha
Até no amor se entranha
Não se deixa enganar

Pobres ilhéus
Sitiados no escuro
Sofredores, desconjuro
À espera de a ver chegar

Sentem-se irados
Maltrapilhos, maltratados
Não vêem enevoados
O prazer que lhes quer dar

[tango da neblina ~ bandarra]

yuzin

a yuzin de julho e a cidade que nos espera.

mar com poeta dentro

o corpo da ilha não tem nome
próprio de quem se rodeia de orvalhos antigos.
quando navega não tem
rumo nem destino.
no cais a penumbra branca desce
sobre a viagem adormecida.

desconhece-se que poeta foi ver o mar por dentro.
mas sabe-se quem grafitou com sonhos
os muros da solidão.

andanças de pedra e cal ~ álamo de oliveira, 2010
(via livraria solmar)

entre ti e mim uma ilha

percorro em ti o que de ti sei
agora vão pássaro em voo
espelho de escuras sombras e lago
idêntico à ovelha que roda
no círculo que a fecha em si

entre ti e mim despenhados das águas
que dos montes aos montes tornam
entre ti e mim uma ilha
………………………………

p.93, a cal dos muros ~ antonio dacosta

pássaro verde

O mundo figurado de Dacosta é implacável com quem se não queira submeter à espacialidade que ele lhe oferece, às condições de uma iluminação bárbara ou sábia, a variedade de sinais, aos contrastes simbólicos. Só depois de tratadas a fogo de sinceridade, as coisas da invenção pictural de Dacosta consentem alguma graça tecnicamente possível (e sempre com escândalo da boa-educação dos museus): como, por exemplo, a barbatana onde se esperava a asa; uma chave de ferro em puro cor-de-rosa; aquela rola que espreita da mastóide numa cabeça clássica, duns verdes plúmbeos, de tão forte composição.
A princípio, ainda me quis parecer (por um começo de rabugência da vizinhança dos quarenta anos) que António Dacosta procurava nos abecedários de alguns ismos mais ou menos passados em pintura, o seu pendão de guerra. Porque, enfim, entrar na liça é bonito, contanto que nos vejam…
Mas como podia António Dacosta – que é o que se chama um pintor – pretender outra coisa que não fosse ver («vi como um danado», escreve Fernando Pessoa), e ver pelos olhos que trouxe das ilhas, – lá de todo o repouso e paz crepuscular, 1á do silêncio açoriano que nos não ensina senão a ver com vaga e sem alarido o que é natural e dado para se ver?!
Assim, se o pintor trabalha no monstruoso, ou no anómalo, se vai pelo caminho menos lisonjeiro que plasticamente dar-se pode, vai para dar à sua graça de artista a mão de ferro de que ela precisa para se instalar um dia sem parentescos fáceis na Forma e na Cor.
A esta espécie de anjo-mau das exposições, desmancha-prazeres do vernissage, que é António Dacosta, deu Deus desde já a segurança que faz um retratista sólido, ali ao cavalete artista que só pede tempo de atelier, maturação técnica, para selar as semelhanças com o invariável sinal do seu engenho. Que dirão a isto os assustados com algum monstrengo azul celeste das composições de Dacosta?
E cor. Um sentido da cor pura, que já se não pode dizer rigorosamente obtida, mas jogada aos dados no quadro, – daquela cor que não depende do que já se sabe muito bem quando é para ser azul, verde ou açafrão. Isso que faz um quadro e um pintor, como a palavra ardente e rápida num verso faz o verso e o poeta.
Estilo, afinal, quer dizer só matéria.

Vitorino Nemésio, In Variante, n.º 1, 1942

a festa

antonio dacosta, 1942

Pyrrhula murina

UICN retirou o priôlo da lista das espécies Criticamente em Perigo de Extinção (>).

No início deste século, a população mundial do priôlo (Pyrrhula murina) estava reduzida a um grupo de entre 120 e 140 indivíduos, concentrada num cantinho montanhoso da ilha, nos concelhos do Nordeste e da Povoação. A ave, com 30 gramas e cerca de 16 centímetros de comprimento, estava a desaparecer devido à falta de alimento. A justificação estava no “recuo da floresta Laurissilva e da proliferação das espécies exóticas”, explicou Luís Costa.

Hoje estima-se que a população de priôlo esteja algures entre os 500 e os 800 casais.

Mas as boas notícias não são fruto do acaso. De 2003 a 2008, a Spea conseguiu recuperar 230 hectares de floresta nativa, através do corte e do controlo da vegetação exótica e da plantação de espécies autóctones. Tudo aconteceu no âmbito do projecto europeu LIFE “Recuperação do Habitat do Priolo na Zona de Protecção Especial (ZPE) Pico da Vara/Ribeira do Guilherme”.

dia dos açores

ou dia da pombinha, comemorou-se no passado dia 24 (>)…

a ilha & a máquina

a ilha aos poucos desaparecerá. *

sortes

sortes

no domingo, após a coroação, para a qual sai a corôa em luzido cortejo, da casa do séptimo mordomo, é a mesma levada para o local, onde se acha um pequeno alpendre ou uma armação de madeira, especie de varanda quadrangular coberta por um tecto e tendo interiormente um pequeno trono, em que se coloca aquêle emblema do espirito santo. a êste novo tabernáculo se dá o nome de império e também o de teatro. lá vão os devotos apresentar as suas ofertas, devidas muitas vezes em razão de promessas feitas em momentos de aflição. de tarde são essas ofertas arrematadas e ao anoitecer, ou pouco depois, procede-se ao sorteio dos cargos e obrigações, que hão de pertencer aos irmãos no ano seguinte.

[página 175 ~ a alma do povo micaelense. padre ernesto ferreira]

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