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Matança
“A tradição da matança do porco é ainda um importante meio de subsistência para uma parte da população açoriana. Originalmente, o ritual da “Matança” durava vários dias e envolvia toda uma comunidade. Hoje em dia, faz-se apenas durante o fim de semana e é essencialmente um evento familiar. O filme “Matança”, enquanto nos mostra como se mata e desmancha o animal, também nos indica que o futuro da tradição depende da sua constante adaptação ao presente: os alguidares de barro deram lugar aos de plástico e, em vez de se cantar ao desafio, ouve-se música pop na rádio. A velhota, sentada no sofá a ver televisão, garante-nos que já se pode dar uma Matança à sua neta, que ela faz tudo.”
Matança ~ Andre Laranjinha, 2011
Vencedor do melhor filme açoriano (curtas) do FFF 2011.
era uma vez numa ilha
“Aqui fica uma entrevista com o realizador Gonçalo Tocha sobre o filme que está em competição nesta edição do DocLisboa.
Como foi parar ao Corvo?
De barco, à boleia com o marinheiro suíço Jean-Claude. Mas já sabia que ia ao Corvo e ia preparado para começar a filmar.
Quão distante (ou próximo) da realidade era o conhecimento que antes tinha da ilha?
Tinha o desconhecimento de quem nunca lá tinha ido e daí o impulso de descobrir. Apesar de ir aos Açores, a São Miguel, quase todos os anos desde criança, o Corvo era um outro mundo inacessível. Tão pequeno e longínquo quanto mitológico.
Ao chegar começaram logo a filmar, ou foram-se adaptando ao lugar aos poucos?
Cheguei ao Corvo a filmar e sai do Corvo a filmar.
Como reagiram as pessoas à presença da vossa câmara na sua ilha?
Com a desconfiança inicial perante o estranho. Cheguei vindo da nada, sem conhecer ninguém. Só me cabia em papel provar até onde estava capaz de chegar. Para além disso, a ilha tinha sido fustigada, nos últimos tempos, com reportagens da televisão que, de alguma forma, criticavam o seu modo de vida. Como no Corvo o conceito de cinema não existe, levámos por tabela. Mas no final de contas, gostei desta tensão, nada era dado.
Levou tempo a deixar de se sentir um forasteiro?
Com o segundo retorno fiquei menos forasteiro, e com o terceiro fui adoptado. Por vezes já diziam que já fazia parte da família e que já poderia filmar tudo o que quisesse.
O que mais encanta e o que mais assusta num microcosmos tão pequeno como é o Corvo?
O que mais encanta é o sentimento de pertença. Aqui, como a bordo dos navios, toda a gente conta. Possivelmente menos confortável, é a noção circular do espaço, andamos às voltas, sem sair do mesmo espaço. Todas as conchas protegem e limitam.
Como fazia o dia a dia por lá? O que se fazia depois do trabalho?
Nunca houve “depois do trabalho”. Todos os minutos era para o filme, mesmo os petiscos, os jantares, as festas, o copo no café. Estávamos sempre com a câmara e o microfone ligados.
Leu sobre a ilha antes de ir ou foi descobrindo os lugares, histórias e pessoas já na ilha?
Li tudo o que encontrei escrito sobre o Corvo. Passei duas semanas na Biblioteca Pública de Ponta Delgada. São poucos documentos, cabem numa pasta. Tinha uma noção alargada do que teria sido a ilha nos últimos 500 anos, ainda que não se possa saber muito. Sabia que estava a passar por uma transformação económica e social radical. Mas não se sabia bem que transformação seria essa. Quando cheguei à ilha, havia então tudo para descobrir, as pessoas, a natureza, o passado e o presente.
Sente-se o isolamento? E como se ultrapassa esse isolamento?
Nunca senti isolamento, mas também eu vivi o quotidiano do Corvo através duma aventura.
Está a tentar uma estreia em sala para o filme? Como se faz isso sem ter uma distribuidora?
Vou tentar estreia em sala, e talvez até o faça com a uma distribuidora, se houver sintonia.”
entrevista a gonçalo tocha, por nuno galopim
disponível em sound + vision
adenda – É Na Terra, não é na Lua, de gonçalo tocha, foi o grande vencedor da edição deste ano do doclisboa.
curto
nós nao temos medo que o mar nos alague ou de que a terra nos falte: – temos sempre presente, como salutar advertência, a sensação de que o mundo é curto , e o tempo mais curto ainda.
pág. 46, corsário das ilhas, vitorino nemésio
sobre o ilhéu
tudo, para o ilhéu, se resume em longitude e apartamento.
a solidão é o âmago do que está separado e distante.
corsário das ilhas
vitorino nemésio
A voz
A voz
que entoava
essa ave pequena
o mínimo pássaro
não é outra coisa
mais
do que
minha alma
hei-de
ouvir
canção
por
sobre a névoa
da ilha
João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores
via o melhor amigo
As trevas da tua dor
E também te podem dizer
sê servil na pátria dos outros
pois a tua terra deixou-te nascer
somente para a fome ou para que vivas
no chiqueiro de um porco. Emigra e
volta da pátria dos outros
sem palavras, mas carregado de coisas
se, acaso, tiveres sorte, isto é,
se fores suficientemente servil.
Podes depois voltar
com alma de aluguer
abandonada que foi a tua terra
para te sujeitares ao trabalho que
te envergonharias de fazer. E
quando regressares – julgando que
regressar é verbo que se conjuga –, vais
julgar-te um herói, qualquer coisa,
só porque andas com máquina de vídeo
choldreando por todo o lado. Isto é
também a tua pátria, a tua vida. E
não há cão que
uive às trevas da tua dor.
João Miguel Fernandes Jorge
in Antologia Açoriana, Governo dos Açores
via o melhor amigo
na ilha
como num mundo novo.
dia dos açores
decreto regional nº 13/80/a
formada por pequenas comunidades isoladas durante séculos, a região autónoma dos açores manteve cultos e práticas profundamente populares, totalmente enraizadas no quotidiano e de origem vincadamente portuguesa.
porventura o mais significativo de todos eles será a comemoração do espírito santo – em que se entrelançam as mais nobres tradições cristã com a celebração da primavera, da vida, da solidariedade e da esperança -, comemoração cuja vitalidade se alarga naturalmente a todos os núcleos de açorianos espalhados pelo mundo.
as celebrações são espontâneas, tão vividas e tão intensas que a natureza das coisas como que impõe um inevitável descanso no primeiro dia útil que se lhes segue.
porque é o mais popular dos dias de repouso e recreio em toda a região, entende-se justo consagrá-lo como afirmação da identidade dos açorianos, da sua filosofia de vida e da sua unidade regional – base e justificação da autonomia política que lhes foi reconhecida e que orgulhosamente exercitam.
assim, e nos termos o artigo 229º, nº1, alínea a), da constituição, a assembleia regional dos açores decreta o seguinte:
artigo único – 1 – considera-se como dia da região autónoma dos açores a segunda-feira do espírito santo. 2 – é feriado regional o dia referido no número anterior.
diário da republica, 1 série – nº192-21-8-1980





