
O mundo figurado de Dacosta é implacável com quem se não queira submeter à espacialidade que ele lhe oferece, às condições de uma iluminação bárbara ou sábia, a variedade de sinais, aos contrastes simbólicos. Só depois de tratadas a fogo de sinceridade, as coisas da invenção pictural de Dacosta consentem alguma graça tecnicamente possível (e sempre com escândalo da boa-educação dos museus): como, por exemplo, a barbatana onde se esperava a asa; uma chave de ferro em puro cor-de-rosa; aquela rola que espreita da mastóide numa cabeça clássica, duns verdes plúmbeos, de tão forte composição.
A princípio, ainda me quis parecer (por um começo de rabugência da vizinhança dos quarenta anos) que António Dacosta procurava nos abecedários de alguns ismos mais ou menos passados em pintura, o seu pendão de guerra. Porque, enfim, entrar na liça é bonito, contanto que nos vejam…
Mas como podia António Dacosta – que é o que se chama um pintor – pretender outra coisa que não fosse ver («vi como um danado», escreve Fernando Pessoa), e ver pelos olhos que trouxe das ilhas, – lá de todo o repouso e paz crepuscular, 1á do silêncio açoriano que nos não ensina senão a ver com vaga e sem alarido o que é natural e dado para se ver?!
Assim, se o pintor trabalha no monstruoso, ou no anómalo, se vai pelo caminho menos lisonjeiro que plasticamente dar-se pode, vai para dar à sua graça de artista a mão de ferro de que ela precisa para se instalar um dia sem parentescos fáceis na Forma e na Cor.
A esta espécie de anjo-mau das exposições, desmancha-prazeres do vernissage, que é António Dacosta, deu Deus desde já a segurança que faz um retratista sólido, ali ao cavalete artista que só pede tempo de atelier, maturação técnica, para selar as semelhanças com o invariável sinal do seu engenho. Que dirão a isto os assustados com algum monstrengo azul celeste das composições de Dacosta?
E cor. Um sentido da cor pura, que já se não pode dizer rigorosamente obtida, mas jogada aos dados no quadro, – daquela cor que não depende do que já se sabe muito bem quando é para ser azul, verde ou açafrão. Isso que faz um quadro e um pintor, como a palavra ardente e rápida num verso faz o verso e o poeta.
Estilo, afinal, quer dizer só matéria.
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Vitorino Nemésio, In Variante, n.º 1, 1942