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arquivo da categoria: [avulsos]

verdade manca

posso fazê-lo sozinho,
mas não te vais acostumar
ao meu corpo não estar cá
se de repente a verdade for manca.

se eu andar mais do que tu
e se o vento não parar (…)
cada olho é como um punho
cerrado para te magoar

[verdade manca ~ joão coração]

vivo da memória do teu cheiro


este não é um blog político

Sócrates teve o seu Haiti na Madeira. Tal como Obama, nos escombros da tragédia alheia, o ainda primeiro-ministro Português viu relançada a sua popularidade por simpatia e solidariedade. Descontadas as diferenças abissais, quer da dimensão da hecatombe, quer das personagens, é nestes momentos que um golpe de infortúnio tem o efeito perverso de relançar a simpatia pública por quem personaliza o dever de solidariedade. Certo é que a analogia termina por aqui. Como registam os maníacos das sondagens a popularidade de Obama, que estava em queda, voltou a saldo positivo com a sua disponibilidade para a causa de solidariedade com o Haiti. Após a tormenta da Madeira também Sócrates se prestou ao patriótico dever de prometer ajuda aos Madeirenses capitalizando a popularidade do momento. Porém, a diferença que conta é que Obama ainda mantém um capital político de credibilidade. José Sócrates luta por se manter à tona de água.

in João Nuno Almeida e Sousa nas crónicasdigitais do jornaldiario.com

saudade

toda esta dor
é maior
do que o frio deixado pela tua
ausência.

uma fenda para outra realidade

Quando perguntei se tinha uma relação directa com a morte do seu pai, ocorria-me ter sabido de uma maneira tão brutal e tão cedo dos limites, da finitude e da necessidade de prosseguir.
Acho que percebi e não percebi. Percebi ali a finitude, as circunstâncias da vida, as dificulda- des que se levantavam, todas as decorrências possíveis e imaginárias. Mas a experiência mais radical que eu tive não foi essa. Curioso: sou invariavelmente insultado ou elogiado por um carácter literário que eu acho que a minha obra não tem. Algumas obras literárias são fundamentais para a minha vida, mas leio pouco. Há uma obra que me marca terrivelmente; eu era miúdo, ia passar férias para casa de uns tios, e um primo meu tinha uns livros que comecei a ler e que me deram cabo do juízo. Eram do Samuel Beckett. Não percebi exactamente o que estava a ler, mas achei que aquilo era uma coisa que estava para além do que eu podia compreender. Isso fez com que eu alterasse muito a minha visão do mundo. Foi-me parar às mãos por acaso. Fiquei obcecado. Abriu-me uma fenda para outra realidade, na qual nunca tinha pensado. Eu era uma criança realista.

O que é uma criança realista?
Era capaz de conviver com todos os sonhos e imaginações e fantasias, mas era capaz de perceber que, se o meu pai tinha morrido, isso tinha implicações sérias nas questões da casa, rendimentos, tudo. Não era uma coisa abstracta e longínqua, era uma coisa muito concreta. Eu era ligado à minha mãe, ainda por cima sendo filho único. Mas o alargamento do meu mundo, a partir de qualquer coisa fundante, deriva da minha leitura do Beckett, e não da minha experiência de vida.

Encontrou no Beckett o quê?
Posso garantir que encontrei algo, mas não sei o quê. Talvez um limite, uma condição trágica, que eu acho que percebi, e que fez com que abandonasse a minha ideia de seguir uma carreira brilhante como engenheiro ou aviador.

- molder, modo de usar; entrevista por anabela mota ribeiro
revista pública 7 fevereiro 2010, pag 51.

o noddy e o unicórnio cor-de-rosa

bem que tentei, mas ele trocou-me pelo noddy e ela pelo unicórnio cor-de-rosa. de facto, a minha barba é assustadora.

realidade

acordámos
de onde a vida havia parado.
as sombras esvaneceram-se,
outros vultos se aproximam.

talvez só existámos no sonho um do outro.

O voyeurismo da tragédia*

haiti

* ler aqui
foto de jorge silva/reuteurs.

um, dois, três

ao longo de 3 anos foram 15,061 visitantes de 63 países (pronto, muitos deles vieram aqui parar acidentalmente) e destes, há pelo 23 que são regulares e seguem este blog pelo google reader. a estes e a todos os outros (por exemplo, no google cerca de 80% das pesquisas são mesmo por apeloeh) muito obrigado por cá continuarem.

este é um blog de baixa tiragem, feito nas horas vagas e enquanto não se tornar uma obrigação cá continuarei.

do pessimismo habitual

em i heart huckabees (david o. russell, 2004), a personagem de isabelle huppert acreditava que nada estava ligado na vida. de facto, esta era aleatória e cruel. lembrei-me disto na passagem de ano. esqueçam os balanços e as resoluções de ano novo, pois nada mudará e  a vida seguirá inevitavelmente sem nos consultar.

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