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o tempo tem passado

sinto-me metade de um homem – disse gould. – deus roubo-me as unhas e é como se não tivesse alguns órgãos e alguns pensamentos e alguns sonhos. sinto-me um pianista que só toca com uma mão, percebes? há metades que funcionam, como, por exemplo, as meias doses dos restaurantes. mas há outras metades que são o maior desastre, como um cirurgião que interrompe a operação a meio.

– não fazes ideia de onde é que ela possa estar?

– não sei de nada desse que voltou para a união soviética. quando penso nisso  percebo que a conhecia muito mal. não sei quem era. talvez seja por isso que as pessoas precisam de deus: precisam de algo impossível de definir.

– o tempo fará com que a esqueças.

– gostava da maneira como ela me olhava, sentia uma borboleta a pousar-me nos olhos. às vezes até tinha vómitos. era muito bom.

– o tempo fará com que…

– o tempo tem passado, isaac, tem passado. e eu continuo a ser metade de mim mesmo.

[…]

jazz, rosas e rosmaninhos ~ afonso cruz
p. 143, granta portugal vol1

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