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o banco de antero sempre foi, para mim, um lugar de culto, que quase oração.
aprendi-o, com o meu pai, numa manhã de doze anos.
a gente ia a aproximar-se, quando ele pegou na minha mão e foi dizendo, baixinho, o soneto ‘na mão de deus’.
hoje, ainda o oiço, hoje, quando ali me sento, os seus dedos continuam a tomar conta dos meus.

em ano que já cá não está, ia eu a rasgar a miserável tristeza que, há muito, sitia o campo de são francisco, quando deparei com um casal em frente do banco de antero.
ela vinha de máquina fotográfica ao peito e ele, num rodopio imbecil, sentou-se, abriu os braços, e disse em alta voz:
– “tira-me uma fotografia! foi aqui que o gajo se suicidou!”

quando a máquina fotográfica disparou, todas as pombas, feridas de vergonha, levantaram voo…

pág.15, 30 crónicas II
emanuel jorge botelho

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