01.ARQUIVOS | 02. LINKS | 03. CONTACTO

arquivo do mês: [03, 2012]

Filmes vistos em Março

>> no cinema
é na terra não é na lua ~ gonçalo tocha, 2011 *****
the hunger games ~ gary ross, 2012 ***

>> em casa
sangue do meu sangue ~ joão canijo, 2011 versao longa *****
eva ~ kike maíllo, 2011 ****
immortals ~ tarsem singh, 2011 **

sobre um mundo difícil

# cento vinte um. carderno preto número um
final notations, adrienne rich

sobre todos aqueles anos

# quatro. moleskine city los angeles 2011
all those years, adrienne rich

Don is back. How do you Draper?

VERSÃO LIVRE #40: VOU DAR DE BEBER À DOR

1. misia, que o meu coração se cansou
2. carlos paredes, verdes anos
3. teresa tarouca, saudade sileêncio e sombra
4. antonio zambujo, apelo
5. carminho, escrevi o teu nome no vento
6. carlos do carmo, não se morre de saudade
7. mariza, chuva
8. pedro moutinho, vou-te levando em segredo
9. mafalda arnauth, talvez se chame saudade
10. camané, porque me olhas assim
11. amália rodrigues, estranha forma de vida

11 fados, 61mb, 42 min [download zipfile ouvir em 8tracks.com]

coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando.

Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar. Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

a mulher de porto pim
antónio tabucchi

a mulher de porto pim

Todas as noites canto, porque sou pago para isso, mas as canções que ouviste eram pézinhos e sapateiras para os turistas de passagem e para aqueles americanos que se estão a rir lá ao fundo e que daqui a pouco se vão embora aos ziguezagues. As minhas verdadeiras canções são só quatro chama-ritas, pois o meu repertório é escasso, e depois eu estou a ficar velho, e fumo de mais e a minha voz está rouca. Tenho de vestir este balandrau açoreano que se usava em tempos, porque os americanos gostam do pitoresco, depois voltam para o Texas e contam que estiveram numa tasca, numa ilha perdida, onde um velho com uma capa cantava o folclore do seu povo. Querem a viola de arame que dá este som de feira melancólica, e eu canto-lhes modinhas pirosas onde a rima é sempre a mesma, mas tanto faz, eles não percebem e, como vês, bebem gin tónico. Mas tu, o que é que procuras, que todas as noites vens aqui? Tu és curioso e procuras outra coisa, porque é a segunda vez que me convidas a beber, mandas vir vinho «de cheiro» como se fosses dos nossos, és estrangeiro e finges falar como nós, mas bebes pouco e depois ficas calado e esperas que fale eu. Disseste que és escritor e, no fundo, talvez a tua profissão tenha alguma coisa a ver com a minha. Todos os livros são estúpidos, há sempre pouco de verdadeiro neles, e contudo li muitos nos últimos trinta anos, mesmo italianos, naturalmente todos traduzidos, aquele de que mais gostei chamava-se Canaviais no vento, de uma tal Deledda, leste-o? E depois tu és jovem e gostas de mulheres, bem vi como olhavas para aquela mulher muito bonita com o pescoço alto, olhaste para ela toda a noite, não sei se estás com ela, também ela olhava para ti e talvez te pareça estranho, mas tudo isto acordou em mim qualquer coisa, deve ser porque bebi de mais. Sempre escolhi o demais na vida e isto é uma perdição, mas não há nada a fazer quando se nasce assim.

a mulher de porto pim
antónio tabucchi

sobre a vida

espeta-te com o garfo.
corta-te com a faca.
deita-te no prato.
espera.

alexandre o’neil
a capital, junho 1975

vai/vem

os emigrantes, domingos rebelo 1926
os regressantes, tomaz vieira 1987

the truth is indecent

the truth is not beautiful. in fact, is quite indecent.

[the broken tower ~ james franco, 2011]

« Anteriores §