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a vida não me interessa

a vida não me interessa. algumas florentinas esbeltas, de xale escuro pela cabeça, alguns tipos de homens fortes – e mais nada. de ilha a ilha – corvo e flores – vão quinze milhas – mas que distância as separa!… aqui há escrivães de fazenda – empregados públicos – senhores e plebe. compreendo o corvo, não compreendo os interesses mesquinhos, moídos e remoídos numa pequena vila isolada a cem léguas do mundo. vejo às janelas, por dentro das vidraças, fisionomias tristes de velhos que estão desde que se conhecem à espera de quem passa – e não passa ninguém. é aqui que o hábito deita raízes de ferro. oh, meu deus! descubro que a gente enterrada há cinquenta anos se encontra outra vez nas flores, viva e aferrada às mesmas palavras e às mesmas manias do passado, numa meia-sombra em que se cria bolor. estou talvez no purgatório – o inferno é mais ao norte… certos seres mortos na minha mocidade, e que eu não sabia onde se tinham metido, foram desterrados para as flores. até personagens de romance! até a d. felicidade do eça aqui habita e exala os seus gases, e outras damas antediluvianas com broches ao pescoço e barrigas tão grandes como já hoje não existem barrigas no mundo! visitei uma senhora de idade que nunca saiu de casa e até a paisagem da ilha desconhece. quem não trabalha só pode fazer uma coisa: sentar-se nos bancos de pedra da misericórdia e esperar a morte. e na verdade aqui tanto faz estar vivo como morto e sepultado num jazigo de família.

– raul brandão, as ilhas desconhecidas.

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