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era uma vez numa ilha

“Aqui fica uma entrevista com o realizador Gonçalo Tocha sobre o filme que está em competição nesta edição do DocLisboa.

Como foi parar ao Corvo?
De barco, à boleia com o marinheiro suíço Jean-Claude. Mas já sabia que ia ao Corvo e ia preparado para começar a filmar.

Quão distante (ou próximo) da realidade era o conhecimento que antes tinha da ilha?
Tinha o desconhecimento de quem nunca lá tinha ido e daí o impulso de descobrir. Apesar de ir aos Açores, a São Miguel, quase todos os anos desde criança, o Corvo era um outro mundo inacessível. Tão pequeno e longínquo quanto mitológico.

Ao chegar começaram logo a filmar, ou foram-se adaptando ao lugar aos poucos?
Cheguei ao Corvo a filmar e sai do Corvo a filmar.

Como reagiram as pessoas à presença da vossa câmara na sua ilha?
Com a desconfiança inicial perante o estranho. Cheguei vindo da nada, sem conhecer ninguém. Só me cabia em papel provar até onde estava capaz de chegar. Para além disso, a ilha tinha sido fustigada, nos últimos tempos, com reportagens da televisão que, de alguma forma, criticavam o seu modo de vida. Como no Corvo o conceito de cinema não existe, levámos por tabela. Mas no final de contas, gostei desta tensão, nada era dado.

Levou tempo a deixar de se sentir um forasteiro?
Com o segundo retorno fiquei menos forasteiro, e com o terceiro fui adoptado. Por vezes já diziam que já fazia parte da família e que já poderia filmar tudo o que quisesse.

O que mais encanta e o que mais assusta num microcosmos tão pequeno como é o Corvo?
O que mais encanta é o sentimento de pertença. Aqui, como a bordo dos navios, toda a gente conta. Possivelmente menos confortável, é a noção circular do espaço, andamos às voltas, sem sair do mesmo espaço. Todas as conchas protegem e limitam.

Como fazia o dia a dia por lá? O que se fazia depois do trabalho?
Nunca houve “depois do trabalho”. Todos os minutos era para o filme, mesmo os petiscos, os jantares, as festas, o copo no café. Estávamos sempre com a câmara e o microfone ligados.

Leu sobre a ilha antes de ir ou foi descobrindo os lugares, histórias e pessoas já na ilha?
Li tudo o que encontrei escrito sobre o Corvo. Passei duas semanas na Biblioteca Pública de Ponta Delgada. São poucos documentos, cabem numa pasta. Tinha uma noção alargada do que teria sido a ilha nos últimos 500 anos, ainda que não se possa saber muito. Sabia que estava a passar por uma transformação económica e social radical. Mas não se sabia bem que transformação seria essa. Quando cheguei à ilha, havia então tudo para descobrir, as pessoas, a natureza, o passado e o presente.

Sente-se o isolamento? E como se ultrapassa esse isolamento?
Nunca senti isolamento, mas também eu vivi o quotidiano do Corvo através duma aventura.

Está a tentar uma estreia em sala para o filme? Como se faz isso sem ter uma distribuidora?
Vou tentar estreia em sala, e talvez até o faça com a uma distribuidora, se houver sintonia.”

entrevista a gonçalo tocha, por nuno galopim
disponível em sound + vision

adenda – É Na Terra, não é na Lua, de gonçalo tocha, foi o grande vencedor da edição deste ano do doclisboa.

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