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arquivo do mês: [07, 2011]

filmes vistos em julho

>> no cinema
les petits mouchoirs ~ guillame canet, 2010 ****
super 8 ~ jj abrams, 2011 ****
harry potter and the deathly hallows, part 2 ~ david yates, 2011 ***

>> em casa
the lady from shanghai ~ orson welles, 1948 *****

o coração dele

quatro das balas de dufarge atingiram o homem-gargalhada, duas delas no coração. quando dufrage, que continuava a proteger os olhos para não ver a cara do homem-gargalhada, ouviu um estranho estertor de agonia vindo da direcção do seu alvo, rejubilou. o negro coração a bater desvairadamente, precipitou-se para a filha inconsciente e reaninou-a. e os dois, fora de sí de júbilo e com a coragem dos cobardes, ousaram então olhar para o homem-gargalhada. a cabeça dele pendia como morta, o queixo encostado ao peito ensanguentado. devagar, avidamente, pai e filha aproximaram-se para apreciar a sua presa. mas uma enorme surpresa os esperava. o homem-gargalhada, longe de estar morto, estava concentrado a contrair os músculos do estômago segundo um método secreto. assim que os dugrage ficaram ao seu alcance, ergueu subitamente a cara, soltou uma gargalhada terrível, e com toda a facilidade, e até com vagar, regurgitou as quatro balas. o impacto de tal feito nos dufarge foi tal modo forte que os corações literalmente lhes rebentaram e eles tombaram mortos aos pés do homem-gargalhada.

o homem-gargalhada, nove contos – j. d. salinger

o coração dela

eu, sentado entre os dois à mesa da cozinha, ouvindo um e outro. ouvia, ouvia, ouvia, com a cabeça entre as mãos — até que finalmente, não podendo aguentar mais, enfiava a mão pela garganta abaixo de madame yoshoto, agarrava o coração dela e aquecia-o como se faz a um passarinho.

a fase azul de daumier-smith, nove contos – j. d. salinger

beijo

vivendo em câmara lenta
corrosão sem fôlego
à espera do teu beijo
para me trazer à vida.

[versão livre de slow motion ~ patrick wolf]

fakebook, google less e similares

são redes sociais a mais para tão pouca amizade.

in a mulher certa

versão livre #33: I forgot if we dreamed

1. smother, wild beasts
2. putting the dog to sleep, the antlers
3. wiscosin, bon iver
4. decisions, how to dress well
5. in your lair bear, marissa nadler
6. memory’s stain, cass mccombs
7. daphne, lia ices
8. in ear park, department of eagles
9. riding for the feeling, bill callahan
10. the beast, austra

10 músicas, 95mb, 50.8 min [download]
i wanna say how much/ i could watch that grass grow/
too many hours in the day that you’re away.

outras vidas

seria a perda de uma vida esperada
diferente para causar o desespero num estranho?

seria o som de uma vida quebrada
capaz de ressoar na alma de um estranho?

seria a indiferença da vida,
a fé ou a fragilidade a debater?

[vresão livre de if i had glass hands and feet ~ school of seven bells]

please, don’t kiss me

please don’t love me, but if you love me, then don’t take your lips or your arms or your love away. >

[the lady from shanghai ~ orson welles, 1948]

I DON’T WANT TO DIE

Elsa: He and George, and now me!
Michael: Like the sharks, mad with their own blood. Chewing away at their own selves.
Elsa: It’s true. I made a lot of mistakes.
Michael: You said the world’s bad, and we can’t run away from the badness. And you’re right there. But you said we can’t fight it. We must deal with the badness, make terms. And then the badness’ll deal with you, and make its own terms, in the end, surely.
Elsa: You can fight, but what good is it? Goodbye.
Michael: You mean we can’t win?
Elsa: No, we can’t win. Give my love to the sunrise.
Michael: We can’t lose, either. Only if we quit.
Elsa: And you’re not going to?
Michael: Not again!
Elsa: Oh Michael, I’m afraid. Michael? Come back here. Michael! Please! I don’t want to die! I DON’T WANT TO DIE!

[the lady from shanghai ~ orson welles, 1948]

Qual de nós dois é a sombra do outro?

E, por fim, Deus regressa
carregado de intimidade e de imprevisto
já olhado de cima pelos séculos
humilde medida de um oral silêncio
que pensámos destinado a perder

Eis que Deus sobe a escada íngreme
mil vezes por nós repetida
e se detém à espera sem nenhuma impaciência
com a brandura de um cordeiro doente

Qual de nós dois é a sombra do outro?
Mesmo se piedade alguma conservar os mapas
desceremos quase a seguir
desmedidos e vazios
como o tronco de uma árvore

O mistério está todo na infância:
é preciso que o homem siga
o que há de mais luminoso
à maneira da criança futura.

José Tolentino de Mendonça
(e todos devem saber porquê >)

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