ontem fiquei pensando nisso, no amor, nessa insistência no amor, como se o amor pudesse nos salvar de tudo, ou ao menos de alguma coisa, como se o amor pudesse nos salvar do ódio, da loucura e até do desejo. quem será que inventou isso? se nem mesmo do amor o amor nos salvaria. que dizer então da tristeza, da indiferença e daquele inevitável momento em que o amor acaba. aquele momento que achamos que nunca vai chegar. e como saber quando o amor acaba? haverá um instante, uma linha divisória, uma revelação, um despertador interno que toca, e pronto, acordamos e dizemos, ainda sonolentos, acordamos e dizemos, pronto, acabou. levantamos, nos vestimos, pegamos a bolsa ou a mala, e saímos. lá fora, a luz da manhã de um dia qualquer, as pessoas nos ônibus indo trabalhar, as crianças de uniforme, o café com leite das padarias, tudo tão quotidiano, tão normal. como é possível tudo tão quotidiano, enquanto lá dentro, num apartamento, num quarto, numa cama, lá dentro o amor que acaba de acabar. ou vai o amor acabando desde o início, desde o primeiro beijo, o primeiro olhar, a intuição de que algo se desgasta, se desfaz. e, por mais beijos e olhares e todas as palavras felizes e tolas que possamos inventar, sempre algo à espreita que nos inquieta. algo que, no exacto instante em que começa, dá início também ao inevitável processo de extinção.
página 35, flores azuis
carola saavedra