chove a bom chover quando o avião vindo de s.miguel aterra no aeroporto do pico num dos primeiros dias de junho. a montanha encontra-se algures por ali, do lado oposto ao do mar, que se consegue vislumbrar para lá da chuva, e não se deixa ver assim com essa facilidade. mas está lá, com 2351 metros que vêm assinalados nos mapas. fica para mais tarde, bastante mais tarde, vê-la em todo o seu esplendor, caprichosamente negado ao visitante com a mesma veemência com que é escondido aos residentes.
há um percalço com parte da bagagem, estranhamente deixada para trás, logo na portela, e que só será entregue no dia seguinte, quando estamos prestes a atravessar o canal em direcção à horta. o avião tinha chegado com atraso e o tempo começa a ficar apertado para cumprir todo o programa da viagem. prolongar a presença no aeroporto com questionários intermináveis e preenchimento arrastado de formulários de bagagem perdida é a ultima coisa que apetece a metade dos passageiros…
uma mala extraviada é uma mala extraviada em qualquer parte do mundo, uma contrariedade com inevitáveis implicações na rotina imediata do viajante. o mesmo se pode dizer de um voo cancelado pelo mau tempo, que nos deixou imobilizados nas lajes quando devíamos ter seguido até ao faial e deu cabo de metade da viagem. nos açores, porém, estes acidentes de percurso ajudam a perceber mais depressa um aspecto singular da realidade local. aqui, é preciso muito tempo para tudo – as esperas nos restaurantes são longas, as estradas estreitas e sinuosas impoem deslocações lentas, a prestação dos serviços morosa e com qualidade insuficiente, o tempo é caprichoso -, mas não se vê ninguém protestar ou impacientar-se. é como se as distâncias curtas dentro da geografia insular promovessem um enigmático (mas nada problemático) alongamento do tempo permitindo que, ao fim e ao cabo, tudo se faça sempre, sem correrias nem pressão.
carlos pessoa – cinco ilhas, cinco mundos; fugas/público 4set2001
este é o inicio de uma longa reportagem sobre uma viagem às ilhas. apesar de não ser totalmente mal conseguida não me deixa de inquietar a oscilação entre a maravilha fugaz da natureza e o descontentamento civilizacional ao longo de toda a reportagem (admito, no entanto, que a minha visão poderá ser claramente enviesada pela insularidade). as ilhas nunca são aquilo que se esperam. isso fui aprendendo, ao longo de todos estes anos, com as pessoas que convenço a lá ir. além disso, é difícil escrever sobre os açores; não basta citar raul brandão e lançar alguns parágrafos de prosa poética a destilar os lugares-comuns de quem por lá passa. quanto ao tempo, como me diziam quando cheguei ao porto – “nos açores, vocês estão sempre atrasados. até na hora”. pois claro, vive-se mais.