[...]
pensou nas maneiras de pôr fim à vida. injecções letais não podia ser. tinha horror a agulhas, e depois de certeza que não ia acertar na veia, e ia jorrar sangue por todos os lados, e ia acabar por desmaiar. sem morrer. má ideia. por outro lado, também podia deixar-se ficar estendido no chão. o sangue a esvair-se lentamente, até não sobrar nenhuma gota. suficientemente tétrico e calamitoso. imaginou a polícia a abrir a porta da casa de banho e a encontra-lo submerso numa poça de sangue, mas ainda a tempo de o ouvir declamar a última frase. qualquer coisa como “é tarde de mais”, “já não pertenço a este mundo” ou “por favor, mudem a areia do gato”. e depois dava o último suspiro e ia desta para melhor. também podia enfiar-se na banheira e atirar para lá um secador ligado à corrente. já tinha visto isso num filme e tinha resultado lindamente. o problema é que não tinha banheira, só um pequeno poliban (que, por falar nisso, estava entupido, tinha de chamar lá alguém para tratar do caso). de certeza que o resultado não ia ser o mesmo. na pior das hipóteses apanhava um choque que lhe faria perder a sensibilidade nas mãos, e depois como é que se podia matar condignamente? pistola não tinham e também não se queria meter em ilegalidades. sem licença de porte de arma, nada feito. estava nisto quando o telefone tocou, fazendo-o saltar no sofá.*
[...]
pág. 42, revista nós escritores ~ ana garcia martins
revista da edicão de fim de semana do i
* com muita dificuldade tenho que resistir a não desvendar o fim. este conto é delicioso (um dos melhores da revista).