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arquivo do mês: [10, 2009]

Filmes vistos em Outubro

fame ~ kevin tancharoen º

away we go ~ sam mendes, 2008 ****

the burning plain ~ guillermo arriaga, 2008 ***

the accidental husband ~ griffin dunne, 2009 º

whatever works ~ woody allen, 2009 ***

chéri ~ stephen frears, 2009 ****

Liebe ist kälter als der Tod

colder

[Love Is Colder Than Death ~ Rainer Werner Fassbinder, 1969]

a ilha

é pobre e es­calvada, o silêncio mete medo, e o isolamento completo e fechado em roda pelo mar atormen­tado. Na verdade eu não podia viver como estes homens, mas na hora da morte queria ser um destes homens.

raul brandão, as ilhas desconhecidas.

* finalmente o lançamento de uma nova edição d’ as ilhas desconhecidas, no próximo dia 4 de Novembro, às 20h30, na Livraria SolMar, com apresentação do Prof. Doutor António M. B. Machado Pires, autor do prefácio.

Reflexão sobre conceitos culturais

A definição de cultura é uma tarefa quase impossível…esgota-se a definir o seu próprio objecto”… Cultura funde-se com Civilização e, como tal, cultura significa, antropologicamente, um todo complexo que inclui a arte, a lei, os usos e costumes, o conhecimento, os credos, a moral, e todas as expressões civilizacionais da sociedade que expressem o modo de vida dos seus membros.

No sentido lato, a cultura abarca, portanto, na sua definição, todas as manifestações dos indivíduos e do colectivo que espelham o modo de vida da sociedade organizada e que constituem a sua marca identitária – a vivência na esfera pública e privada, as expressões urbanas e rurais, a alimentação, a agricultura, a economia, a organização no trabalho, as relações sociais e familiares, a educação e todas as formas de exercício do lazer e do entretenimento. Todas estas manifestações sociais são sinais culturais, sociologicamente, e incluem também aquelas às quais a palavra Cultura está academicamente associada – a literacia, a transmissão do saber e o conhecimento intelectual e artístico.

A conotação Cultura/Saber remonta a desde que o Homem assumiu a sua dimensão intelectual e reconheceu no Conhecimento a alavanca do desenvolvimento civilizacional. Quanto à associação Cultura/Sociedade, esta é produto das modernas Antropologia e Sociologia, nascidas em finais do século XIX e que sedimentam a abrangência da concepção de cultura ao espectro sociológico. Em qualquer delas porém, é inequívoca a sua transversalidade, a sua correlação inter-relacional e o sentido universal do conceito – aquele que define o homem na sua forma de estar no mundo e em tudo o que transporta com ele, de geração em geração.

Então, o que importa aqui reflectir? Sobre o perigo da generalização dos conceitos, da confusão da aplicação da palavra Cultura, umas vezes num sentido, outros noutro, indiscriminadamente, e sobretudo sobre a banalização do adjectivo “cultural”, cuja consequência é a indefinição objectiva do foco que importa relevar quando se fala em estratégias de desenvolvimento social através da cultura.

No sentido intrínseco, Cultura são as manifestações civilizacionais que constroem o acervo estrutural do pensamento, que se reflectem na consolidação de uma sociedade esclarecida e que são a alavanca para o desenvolvimento da sensibilidade, do saber e do conhecimento, condições estas indispensáveis para o avanço das mentalidades e, por consequência, para o avanço para uma sociedade melhor.

Sendo a cultura a preservação e a criação de valores, como e quem determina o que são os valores? A natureza do objecto de arte e de culto é a sua permanência e durabilidade – a sua imortalidade advém da sua revisitação permanente ao longo dos tempos e do reconhecimento que lhes é dado da sua função de alicerces para novas criações. Afinal, em última análise, são os próprios destinatários que se encarregam de o determinar.

Nos tempos de hoje, a “alta cultura” (assim chamada por ter tido origem nas classes então dominantes – o clero, a nobreza, a aristocracia, os intelectuais), por oposição à denominada “baixa cultura”, oriunda do povo com transmissão oral, são ambas património cultural intrínseco reconhecível e indissociável, e sabemos bem quanto ambas devem uma à outra, porque se alimentaram reciprocamente através dos séculos.

Entretanto, surge um 3º género cultural – um contributo da sociedade ocidental do século XX, aquela que inventou o entretenimento de massas, o showbiz mediático e o fast-food intelectual, que é aquele que introduz nesta equação novas inquietações. Este novo género cultural, chamado cultura recreativa de consumo de massas, essencialmente urbano, maioritariamente trivial e mediano, de satisfação imediata, que ocupa os horários nobres das televisões e as páginas “culturais “ dos jornais e revistas nacionais, é constituído pelo maior denominador comum de entre as expressões culturais da sociedade do nosso tempo e tende a ocupar o espaço de fruição cultural, em todas as faixas etárias, colocando a fasquia da exigência do receptor muito abaixo daquela que a tradição foi sabendo preservar e do que a criação intelectual conseguiu atingir.

A contaminação desta estética junto das populações é muito rápida e facilmente se introduz nos hábitos e na linguagem comunicacional. A maioria destas formas de entretenimento cultural são subprodutos de matrizes intemporais, mas a facilitação, quer da sua prática, quer da sua fruição, obriga a aligeirar a forma. Desta maneira, muitos mais a praticam e a consomem. Será esta uma consequência inevitável da democratização da cultura? Ou não será antes o caminho da dissolução da cultura no entretenimento?

E o dilema que a gestão cultural pública enfrenta é este: como determinar quais os valores que importa proteger, apoiar, financiar, se são nestes últimos que a maioria da população se revê? Pode-se e deve-se fazer uma “política de gosto”? Pode o decisor político orientar esteticamente (por via de financiamento) os caminhos do desenvolvimento cultural?

A justificação para o financiamento e subvenção da actividade cultural e artística pelo Governo/Autarquias assenta no princípio de que as artes e cultura são “bens meritórios”, que resultam em benefícios sociais, e que por isso, devem ser tutelados ou apoiados pelo sector publico para garantir a sua permanência. Como “bens meritórios”, as artes e cultura não têm um valor de mercado consentâneo com o seu valor intrínseco, na medida que nem todos os indivíduos avaliam correctamente os benefícios privados e sociais que deles decorrem (como na arte conceptual, plataforma de abertura às interrogações e que questionam permanentemente o adquirido) – nuns casos não participando nos seus custos mesmo que acessíveis, noutros por manifesta impossibilidade prática dado o seu elevado preço (como na ópera ou no cinema de autor ou ainda, como no caso açoriano, nos custos de descentralização destas e de outras formas de arte). Compete assim aos decisores públicos desenvolverem mecanismos que assegurem a difusão o mais alargada possível de bens e serviços meritórios, reconhecendo neles papel primordial na formação e valorização pessoal do indivíduo. Aquilo que beneficia a sociedade deixa de pertencer ao indivíduo – pertence a todos – na medida em que afecta e beneficia a comunidade. Nesse sentido, é justo que o colectivo (Estado) financie aquilo que beneficia o colectivo (Comunidade).

Portanto, o propósito múltiplo de salvaguardar a identidade nacional e regional, de colmatar as deficiências da economia de mercado no sector das artes e de garantir igualdade de oportunidade de acesso à vida cultural por parte de todos os cidadãos, levou a que o Governo/Autarquias passassem a cobrir desde as chamadas “alta e baixa culturas”, até à cultura de massas.

E é neste ponto que volto às interrogações: quando tudo está incluído na mesma categoria como Cultura – dos clássicos intemporais (eruditos ou tradicionais) ao rock e pop-rock mediáticos e ao cançonetismo popular, passando pelas orquestras ligeiras e cantores em play-back, do folclore para turistas às recriações históricas de rua, das expressões genuínas das nossas tradições aos desfiles etnográfico-turístico-religiosos de entretenimento colectivo, dos festivais de verão dedicados à juventude e das praticas recreativas amadoras às iniciativas profissionais institucionais – sempre com a comunicação social generalista a incluir tudo no mesmo pacote nos seus espaços culturais – , como fazer distinguir junto dos cidadãos o que é relevante para a percepção de uma estratégia de desenvolvimento cultural? E mais importante ainda, como fazer passar a mensagem aos destinatários de que nem tudo são “bens meritórios”, logo, subvencionáveis pelo erário público? E o derradeiro desafio: neste quadro, como explicar aos agentes culturais no sentido lato estas diferenças?

Em qualquer caso, a cultura vive da articulação entre o passado e o presente, entre o individual e o universal, entre a herança e o novo legado. Se é certo que julgo haver respostas para estas interrogações, deixo-as contudo aqui para reflexão, na certeza porém de que se há região no País onde estas questões importam, é aqui, nos Açores, onde os açorianos, historicamente, têm sabido encontrar sábias formas de contornar contaminações e de evitar atalhos para prosseguirem o seu caminho cultural em direcção ao futuro. Que assim continue. Apesar dos indícios.

gabriela canavilhas, ainda directora regional da cultura.
Set/09 publicado em alguns jornais da região.

semelhanças

os gregos, tal como os portugueses, vivem do passado.
do futuro, apenas nevoeiro.

aθina

caótica, suja e interminável.
no entanto, coberta de um azul etéreo.

saramago [1]

tão insignificante quanto um fundamentalista religioso é um fundamentalista ateu. felizmente esqueço que há um escritor para além da escrita; só assim leio saramago há anos.

saramago [2]

O grande problema com o furor que provocaram estes comentários de José Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o ‘Antigo Testamento’) é que não devia ter existido furor algum. Saramago não disse mais do que se dizia nas folhas anticlericais do século XIX ou nas tabernas republicanas no tempo de Afonso Costa. São ideias de trolha ou de tipógrafo semianalfabeto, ora zangado com os padres por razões de política e de inveja. Já não vêm a propósito. Mas claro que Saramago tem 80 e tal anos, coisa que não costuma acompanhar uma cabeça clara, e que, ainda por cima, não estudou o que devia estudar, muito provavelmente contra a vontade dele. Mas, se há desculpa para Saramago, não há desculpa para o país, que resolveu escandalizar-se inutilmente com meia dúzia de patetices.

– vasco pulido valente, 23out09 público.

I Just Wanna Know

life2

What We’re Gonna Do?

[the legendary tiger man & asia argento ]

fazendo

fazendo

Mesmo quando tudo está conturbado à nossa volta – no país e no mundo – é possível sentir, no Faial, que estamos numa ilha onde há tranquilidade, há paz.

Mas esse privilégio, o da “ilha de paz” pede que se faça algo. Assim, para estarmos à altura do que nos acontece, para estarmos à altura dessa paz, harmonia, beleza, que se nos oferece é desejável que algo se faça no sentido da manutenção desse estado. O fazer em prol de, o dar, não é um dever mas sim uma oportunidade que nos é concedida. Porque quando estamos a dar, quando temos essa oportunidade, temos também oportunidade de receber em satisfação, em sentido de cumprimento da nossa missão.

Nos Açores as dádivas por parte da paisagem são múltiplas: cada mergulho no mar é uma dádiva; cada pôr-do-sol no Pico é também uma dádiva; aqui o mar e a terra conjugam-se para criar uma paisagem viva, jovem, vibrante, em constante mutação, mas, ainda assim, com um carácter muito próprio. Como retribuir? Como dar à paisagem e assim assegurar um equilíbrio subtil feito da relação entre o homem e o meio natural?

claudia gomes, fazendo edição nº23.

descobri este excelente jornal comunitário, não lucrativo e independente – o que se vai fazendo pelo faial – no sempre açores2010.

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