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da cidade

Os anos vão tombando do calendário e a memória aviva-se.
E a memória avisa…

Colada na voz do tempo, a voz fala-me da minha cidade; do que nela havia de secreto encantamento, de quem nela paseava o sorriso dos passos.
Aos poucos, a cidade foi perdendo luz, foi riscando, sem regresso, o lacre do futuro; a Calheta de Pêro de Teive, o Cine Vitória, a Papelaria Âmbar, o café O Gil, o rumor de abraço do Campo de São Francisco, a Piscina de S. Pedro, o Chorão do Jardim Sena Freitas…

A cidade cresceu, dizem.
Deixou de ser um peixe leve e pequenino, digo eu.

Antes de eu ter nascido, Ponta Delgada já iniciara o seu calado carpir de escamas.
Lembram-se?
Não faltam fotografias para contar a história.

A cidade não cresceu.
Porque ninguém cresce rasurando o passado.

[Crónica 1, in 30 Crónicas de Emanuel Jorge Botelho 2009]
via açores2010/vitor marques.

> nota, despertei para obra de emanuel jorge botelho quando casualmente espreitava um livro numa feira qualquer com o título perguntas queimadas. mania a minha de ler sempre a última página; dizia assim “só mudo de ilha se mudar de ilha; dentro desta/aqui descaço o tempo. a morte não me vê”. comprei logo. essas 30 crónicas deixam-me inquieto, não as consigo comprar por cá.

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