o sangue é mais espesso que a água, e não é por acaso que o sangue aparece implicito logo no título da oitava colectânea de luís quintais. o sangue é ao mesmo tempo uma imagem do sofrimento (colectivo) e uma referência pessoal (à familia). O livro, de tom negro, vai e vem entre uma visão disfórica do nosso tempo e os lamentos pelo desaparecimento de pessoas próximas. quintais sempre recusou toda a espécie de optimismo histórico, e o que aparece aqui é mais uma vez um mundo turbulento e caótico que tem como imagem possível o universo de JG Ballard (expressamente invocado num poema). este nada admirável mundo novo é uma constante nestes poema, como se vê na tradução de um texto sarcástico de thom gunn.
quanto ao ’sangue’ como laço de sangue, temos várias alusões a esquifes e despedidas, acompanhadas de referências musicais sombrias (joy division, elliot smith). aos 40 anos, o poeta reconhece essa dantesca seva escura que é perder quem amamos, e ao mesmo tempo constatar a ‘fátua ontologia’ de que somos feitos. a espessura do sangue convive com a fragilidade da carne, essa carne que vive em tremenda ‘afllição semântica’. é nesse contexto que aparece uma bela evocação do suicida pavesse, cujo centenário assinalamos este ano: ‘caminhar em agosto ou em turim/ as sucessivas revelações das coisas/ acontecem como quem diz um segredo// ou se despede./ nada começa antes do dia seguinte/ tudo é revisitação, tudo é agonia lembrada,// ou então, homem só diante da inútil poesia/ reclama a experiência,/ a singular incerteza de tempo e lugar,// a discreta luz do intransigente verão,/fim de tarde, rua única’.
pedro mexia sobre o novo livro de luís quintais ~ mais espesso que a água, edições cotovia [pág 43. ípsilon sextafeira 21 novembro 2008]