Um homem-carneiro
um homem-carneiro negro percorre desfiladeiros e quedas-de-água, dissolvendo-se como se lançado de uma seringa ou num chuveiro.
- “há muito tempo para te fazer minha esta noite, há muito tempo para te fazer minha. há muitas maneiras de saber que não estás a morrer. oh meu anjo, há ainda uma luz imensa que sai dos teus olhos”.
um homem-carneiro negro de chifres cortados, respirando o nevoeiro ao anoitecer - “há muitas coisas para vestir quando vieres ter comigo, luvas de todas as cores para usar. há milhões de olhos que continuam presos a mim.”
um homem-carneiro negro dissolve-se na húmida memória de te ter, em doces gemidos, em cada regaço morto e em cada casa vazia. morrendo em silêncio, baixa a cabeça, belo e magistral, cheirando a vidálias num luar.
(vês as pegadas frescas por onde ele te levou? há muitas maneiras de reivindicar os seus crimes e há muitas maneiras de desgastar a sua pele. tens o teu. porque fugiste? não sabes que não o podes deixar sozinho? volta para o teu homem-carneiro negro).
- “eu espero. tu sabes que te espero, calmamente, para te fazer minha”.
[versão livre de black sheep boy, okkervil river 2005]
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