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arquivo do mês: [06, 2007]

douro, faina fluvial

não

a primeira obra de manoel de oliveira em dezoito minutos frenéticos sobre o modo de um porto que já não se vê, mas que se sente.

uma sinfonia visual, segundo Baecque
um mosaico geográfico, segundo José de Matos-Cruz

[douro, faina fluvial ~ manoel de oliveira, 1931]

Repousar os olhos na verdura

ainda é das grandes delícias da vida quando se tem a solidão pela melhor das companhias, repousar os olhos na verdura, passar entre (…) filas cuidadas de camélias (…) meter-se por entre árvores e extasiar-se na paz que por ali se derrama em calma e alheamento do mundo.

[página 131, Voz do Longe ~ Armando Côrtes Rodrigues]

Ela, II

terry saiu batendo com a porta. dirigi-lhe a palavra na escuridão da estrada.
– mas como?
– não sei querido. vou ter saudade tuas. amo-te.
– mas eu tenho de me ir embora.
– sim, sim. fazemos amor mais uma vez e depois partes.
voltámos para o celeiro; fiz amor com ela com a tarântula por cima de nós. que estava a tarântula a fazer? dormimos uns momentos em cima dos caixotes enquanto o lume se apagava. as estrelas cingiam o campo adormecido.

(…)

terry trouxe-me o pequeno almoço. eu tinha fechado o meu saco de lona e estava pronto para partir para Nova Iorque logo que tivesse levantado o meu dinheiro em sabinal. sabia que já lá estava à minha espera. disse a terry que me ia embora. ela passara a noite toda a pensar nisso e a conformar-se. beijou-me friamente entre as vinhas e afastou-se ao longo do carreiro de cepas. dada uma dúzia de passos, virámo-nos para trás, pois o amor é um duelo, e olhámos um para o outro pela última vez.

[página 116, capítulo xiii, parte 1, pela estrada fora ~ jack kerouac]

Ela

ela vinha num dos autocarros que acabara de chegar estacionando com um grande suspiro de travões pneumáticos; os passageiros saíam para uma breve paragem de descanso. os seios dela eram espetados e autênticos; as suas ancas estreitas tinham um ar encantador, tinha o cabelo comprido de um preto lustroso; e os seus olhos eram enormes e azuis, cheios de timidez. quem me dera ir no autocarro dela. uma dor apunhalou-me o coração, como acontecia sempre que via uma rapariga de que gostava de seguir na direcção oposta à minha neste mundo demasiado vasto. uma voz anunciou pelo altifalante o autocarro para Los angeles. peguei no saco e entrei, e quem havia de lá estar sozinha senão a rapariga mexicana! deixei-me cair no banco mesmo ao lado do dela e comecei logo a planear uma estratégia. sentia-me tão só, tão triste, tão cansado, tão trémulo, tão prostrado, tão exausto que ganhei coragem, a coragem necessária para abordar uma rapariga desconhecida, e agi.

[página 94, capítulo XII, parte I, pela estrada fora ~ jack kerouac]

(sal de facto agiu; chamava-se teresa, ou terry, procurava uma nova oportunidade da vida. apaixonaram-se em medo, deixando-se levar pela necessidade de se sentirem amados).

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não

muu colecçoes. pêloêh!

a terra de anteu

a ilha é a terra de anteu que te fará sempre ter mais força para a luta.

escreveu-me uma vez lucia costa melo

portanto embarcadiço

sou ilhéu e portanto embarcadiço. além do que a vida é por si mesma uma verdadeira derrota, uma vasta e tremenda singradura.

[página 121, embarques: corsário das ilhas ~ vitorino nemésio]

doses fatais

estamos basicamente sós. apesar de todos os estudos terem mostrado que os erros na aproximação serem apenas um caso de comunicação dificil, não tenho dúvidas que doses fatais de insatisfação serão fulcrais.
diga-me, sr dr, pode quantificar a solidão? e a razão?

[versão livre de imitosis ~ andrew bird, 2007]


o tempo marcado

para um dia de tempestade (como aqueles que fizeram na última semana) e na impossibilidade de partilhar a luz fraca do candeeiro da sala, ficaria a ouvir as ultimas reedições de Marvin Gaye (the 1’s) e de Nina Simone (forbidden fruit at newport, live), bebia um jonnhy walker e acendia um cigarro, enquanto te recordava naqueles momentos de inocência. mas, não fumo, não há alcool cá em casa e nem há um candeeiro de luz fraca na minha sala de agora. resta-me a voz deles e o teu pensamento em mim.

à tua volta

Se pudesse construir o meu mundo à tua volta my lobe, começava por colocar o céu do teu lado e flores por onde quer que andasses. Sobre ti apenas o céu mais azul e com cada gota de chuva lavaria todas as tuas angústias. Todo o meu mundo à tua volta… e isso seria perfeito.

[versão livre de if i could built my whole world around you ~ marvin gaye]

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