fridolin, que se mantivera deitado a seu lado, inclinou-se sobre ela olhando o seu rosto impassível, os olhos claros, grandes, onde o dia parecia também amanhecer, e perguntou-lhe hesitante, mas pleno de esperança:
- que é que devemos fazer, albertine?
ela sorriu, hesitou por instantes, depois respondeu:
- acho que devemos estar gratos ao destino por termos saído ilesos dessas aventuras – tanto as reais com as que sonhámos.
- tens a certeza disso? – interrogou ele.
- sim, como também tenho a certeza que não é a realidade de uma única noite, nem a de toda uma vida que corresponde à verdade intrinseca de um ser humano.
- nem sonho algum – suspirou ele calmamente – é inteiramente sonho.
albertine segurou-lhe a cabeça com ambas as mãos e enconstou-a ao seu seio.
- agora estamos plenamente acordados – observou – por muito tempo.
[páginas 94&95, a história de um sonho ~ arthur schnitzler]
para aqueles que forem apanhados despercebidos, como eu, ao lerem a página 5 e repararem que as palavras não são desconhecidas – ‘não! eu conheço isto’ – é a partir deste romance vienense do início do século XX que kubrick constroi o obssessivo e brilhante eyes wide shut.