Sobre o coração, II

não se sabe como continua a bater.
#cento oitenta e cinco. caderno preto.

não se sabe como continua a bater.
#cento oitenta e cinco. caderno preto.
a solidão era boa quando procurada, chata se involutária.
[página 272, alexandre o’neil, uma biografia literária ~ mªantónia oliveira]
balamentos: jogo entre duas ou mais pessoas durante as semanas que antecedem a páscoa. costumava-se dar balamento ao outro e se esse não tivesse os dedos cruzados ou não se antecipasse a dar balamentos ganhavamos um ponto. no fim, quem perdia tinha que comprar um pacote de amendoas aos outros. (já não ouvia a expressão há uns anos, surpreendentemente hoje enquanto passeava pela cidade andavam uns miudos a dar os balamentos…)
saudade: sentir o mundo pelo desejo de te ter.
nostalgia: afecto pela memória de ter tido.
hey pequena pêga, foste tu que roubaste a aliança? ou que outro pássaro se atreveu a roubar tal esperança minha? estou perdido nestas terras longe do mundo, preso entre os fetos e os sem nome.
[versão livre de magpie, patrick wolf 2007]
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.
natália correia [13.set.1923 ~ 16.mar.1993]
e das canetas parker, com longos textos a acompanhar o slogan “diz-me com quem andas dir-te-ei quem és”. Num deles, o público alvo são os jovens: um jovem como tantos outros. herdeiro de uma civilização, será seu continuador. estudante. escrevendo, compreende o passado para construir o futuro. e mais tarde, quando sobre papel as palavras se alinharem nervosamente, quando a mão lutar por seguir o cérebro que pensa é o amanha que está surgindo e foi uma parker que o escreveu.” Para as mulheres que pudessem ambicionar uma parker, o’neil escreveu: recortada no vermelho de um forro, entre o branco de um lenço de cambraia e o reflexo de um espelho, parker brilha como uma jóia. delicada, elegante, feminina - parker. um número de telefone - parker. a hora de um encontro - parker. um nome, uma morada - parker. uma data a lembrar - parker. pois leitor, assim era o mundo português em 1965: o rapaz usava a caneta para, que bagatela, construir o futuro; a mulher (chique), para apontar os afazeres do amor e da ociosidade.
[página 196, alexandre o’neil, uma biografia literária ~ mªantónia oliveira]
* quando estava no liceu tinha uma em azul, entretanto acho que a perdi algures no passado…

All these years, all these memories, there was you. You pull me through time..
[the fountain ~ darren aronofsky , 2006]

perdemo-nos nos sonhos .
#cento cinquenta e dois. caderno preto.